sábado, 23 de abril de 2016

Das utopias.

Eu tento ouvi-las, Bilac, em vão:
A Terra não deixa.
Gira, gira, de propósito.
Só pra eu perde-las.
Mal não há:
De olhos fechados, as ouço.
E que me tirem os olhos, os ouvidos!
Que me tirem o amor!
Que me tirem a esperança!
Que me tirem a fé!
Danem-se, que me tirem tudo.
Só não tirem de mim, Quintana,
A presença distante das estrelas.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O marido, a esposa e a amante. Secreta, mas que gera muito assunto nos bastidores. O respeitável pai de família que bate na esposa e espanca os filhos. A mulher oprimida, o sufoco. O casamento de fachada, que não pode acabar para o vizinho não comentar. O suicídio. O filho ignorado, abandonado, mesmo dentro de casa. O filho abortado. A moral corrompida, distorcida, a santa missa do domingo e a falta de compaixão, o individualismo, o egoísmo. O retrato social do bem-sucedido, o marido, a esposa e a amante.

E há quem atente contra os tradicionais valores familiares...

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Ó irmãos, é preciso produzir!

E decidir: ou a conta pra pagar

ou o jantar.


É preciso, irmãos, saber esperar

o bilhete que uma hora vai chegar

água, telefone, luz

a conta do calvário e a conta da cruz.


É preciso saber ficar calado.

Apreciar, quietinho, aquela canção 

triste, um choro do peito arrancado.


É preciso torcer com paixão

pelo time de um milhão

praguejar o juiz ladrão

é preciso rimar, ó irmãos.


É preciso ter fé, pedir perdão

proteção redenção e sorte

antes que nos leve de vez a morte.


Irmãos, é preciso apelar, às vezes! Ajoelhar, suplicar

implorar o fim de todo o mal.

Mas não hoje! Hoje, não: é carnaval.

E o carnaval é o descanso de todos os deuses.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"A culpa não é minha, eu votei no Aécio"

Embora não venha sendo conduzida com tanta honradez, a Política, no Brasil, virou uma questão de honra: eleitores de uma facção aguardando, exaustivamente, pelo momento de comemorar, de forma apoteótica, qualquer desastre estatal que possa ser desabonador, por uma espécie de associação irrefutável, ao Governo de sua oposição. Que se dane o Estado!

Ontem eu vi um adesivo em um carro exibindo um gritante "A culpa não é minha, eu votei no Aécio". Fico imaginando: culpa de quê, será? De tudo de mal que ocorrer? De todas as mazelas nacionais desde quando os Portugueses pararam em fila dupla na costa da Bahia e subornaram os flanelinhas pra não arranharem suas caravelas?

Tentei achar algum adjetivo para esse adesivo, entre vários tantos. Só consegui pensar em "covarde". Pareceu-me o mais apropriado. Covarde é a atitude de lavar as mãos, sentar-se na arquibancada e torcer para seu time perder por que seu técnico não escalou o jogador que você queria ver em campo. E depois encher a boca para dizer: a culpa não é minha, eu pedi o jogador tal!

Para o Brasil avançar como Nação, na forma estrita da palavra, é preciso, primeiro, se comportar como tal. É votar em fulano e, na sua derrota, arregaçar as mangas e trabalhar para que o governo de sicrano seja o melhor possível. É muito mais do que criticar o que quer que seja apenas para provar que estava certo, ou torcer enfaticamente para que o Estado de São Paulo se derreta na falta de água ou que a Petrobrás deixe de valer um cacho de bananas só para poder escancarar, orgulhosamente, um reluzente adesivo na carroceria do automóvel: "a culpa não é minha, eu votei em beltrano".

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Uma cena perfeita.

Uma cena perfeita: entrevistador, numa rua qualquer do centro do Rio de Janeiro, ao vivo, abordando aleatoriamente os transeuntes:
- Então, quem você tiraria da casa mais famosa do país?
- Mas assim, de supetão? Da casa mais famosa... Vejamos... O Congresso? Ah sim, bem, o Jair Bolsonaro, de certo, mas também o Renan Calheiros e também o...
- Não, não! O Big Brother! Vejamos, você, quem você excluiria do Big Brother?
- Big Brother? Ahm... Ah, aquele do 1984, do George Orwell, não? Mas tirar? Como assim tirar?
- Não! Vejamos você! Quem você colocaria no paredão?
- Paredão? Isso não acabou com o fim dos regimes totalitários? Tipo, fuzilamento......
- Não! Não é possível! Alguém aqui conhece o programa da Rede Globo, o Big Brother Brasil?
- ...
- O Reallity Show?
- ...
- Gente, o BBB-15! Banalidades, sexo banal, brigas forjadas, aquela babaquice toda? Ninguém?
- ...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Discursos de ódio e preconceito mostram a face mais perversa de um ser humano. Não me espanta que eles existam, o que espanta é saber que há tantos Hitleres e Mussolinis profundamente arraigados e escondidos em nossa sociedade, mesmo depois de tantas barbáries por que o mundo passou. Contra eles, não adianta argumentar, apenas esperar que a justiça os coíba. 

Agora, gente séria e respeitável dizendo por aí que viveremos uma ditadura em função da eleição da Dilma, é preocupante. É preocupante pensar que essa gente é tão prepotente o suficiente para se achar os únicos seres iluminados do Planeta capazes de escolher quem governará, bem e com sabedoria, o Brasil, mas se esqueceu de dar uma estudada nos livros de história.

Olha, já faz mais de quinze anos, mas eu ainda me lembro (algo menos que vagamente) de uma porção de gente com nome esquisito, que abria mão de ficar assistindo Faustão nos domingos, para nos encher de teorias e conceitos que sempre, sempre nos pegavam nas esquinas das provas de Ciência Política, mas fazer o quê? Nosso sistema foi inspirado nesses loucos, vamos a eles!

Lembro de um tal de Sócrates, depois Platão, Aristoteles, Políbio que, se não eram os três (que eram quatro!) mosqueteiros, deviam ser os protagonistas dessa história. Lembro do Republicanismo, ensinado por Platão (o loucão que não conseguia chegar na namorada), dos governos "justos" e "injustos" de Aristoteles (por "justos" ou "injustos", classificavam-se os governos a quem destinava seu mandato. Sei disso por que rodei feio na prova, respondendo com meus devaneios utópicos do que é a justiça e um monte de blablabla retórico que a professora sequer se dignou a ler...), aos quais o de nome esquisitão lá, Políbio (que, durante anos, jurava que estava em algum lugar na tabela periódica) complementou alguns séculos mais tarde.

Pois bem, o Plúmbeo, digo, Políbio, nos interessa por um ponto em particular. Ele pegou os governos "justos" de Aristoteles e teorizou que, todos eles, inevitavelmente, se deturpariam e se tornariam governos "injustos", quais fossem: a "realeza" (a figura do líder, soberano, voltado para o povo) se tornaria uma "tirania" (o dominante, voltado para si e seu clã); a "aristocracia" (uma elite cultural e intelectual, que governaria em prol do melhor para o povo) se tornaria uma "oligarquia" (uma elite voltada para seus próprios interesses); a "democracia" (governo do povo) se tornaria uma "demagogia" (governo voltado só para os pobres). Este ciclo seria inevitável e infindável, segundo o Políbio.

A sacada brilhante que ele teve foi sugerir que, somente a reunião das três formas de governo justas, consolidaria um equilíbrio responsável por impedir que se deturpassem nas formas injustas. E, adivinhem? A figura do Presidente, do Senado e da Câmara popular não lembram nada, nesse cenário? O poder de auto-regulação, também defendido por Políbio, não lembra o Poder Judiciário? Quaisquer semelhanças não são meras coincidências.

Depois vieram Montesquieu, com a separação dos poderes, o federalismo e muitos outros. O mundo deturpou e aperfeiçoou, pelos mais de dois mil anos seguintes, os ensinamentos dessa turma toda aí para chegarmos hoje, num dos momentos em que talvez nossa democracia jamais tivesse estado tão amadurecida ao longo de sua história, e falar que vivemos uma ditadura. Não! Hoje, nós temos uma das mais fortes, consolidadas e amadurecidas oposições quanto, possivelmente, jamais tivemos em nossa história.

A presidente foi eleita com a oposição de mais da metade do povo brasileiro. E não, não é uma deficiência matemática cerebral minha. Afirmo, categoricamente, que mais (e muito mais!) da metade dos eleitores brasileiros é, hoje, uma oposição a ela. Eu sei que sou um dos milhões de cidadãos que não votaram na Dilma, mas em um projeto mais próximo daquele que defendíamos. E, portanto, não somos "situação", mas oposição. Uma tirania não se impõe dessa forma; pelo contrário, se quiser governar, o PT terá que exercitar muito a democracia, a negociação, o argumento. O povo que o coloca é o mesmo que o tira.

Portanto, iluminados que somos, vamos evitar um vexame e, ao invés disso, festejar um dos grandes auges que nossa festa democrática atingiu em toda a sua história: vamos fazer, cada um de nós, nosso papel de cidadãos, no sentido aristotélico da palavra!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Ah, o futebol...

O futebol possui importantes figuras: os cartolas, a torcida, os patrocinadores, o Juiz, a Federação e, talvez secundariamente, os jogadores. Mas quase nenhuma dessas figuras é tão emblemática quanto à da fila do banheiro. Sim, ela, a fila do banheiro, seja no estádio, seja no boteco, seja na casa da sogra com aquele parente chato dando um monte de palpite errado sobre o jogo.

A fila do banheiro é uma representação icônica de todas as mais profundas frustrações humanas acerca do futebol. É nela que damos um murro simbólico na cara do inominável adversário que, de forma petulante, ousa nos vencer em casa. É nela que tripudiamos da pobre alma que está degustando uma amarga goleada do nosso time.

- Não pode!
- O quê?
- O time!
- Quê que tem o time?
- Uai, entrar de uniforme branco, num jogo como esse! Não é possível! E o gandula?
- Quê que tem o gandula?
- Uai, o gandula tá de roxo! Sabe o que representa o roxo? O roxo é a cor mais azarenta que existe! Pior que o roxo é só essa chuteira do atacante!
- É, talvez, mas...
- Não, e você viu o time? A primeira criança que entrou com o artilheiro do time pisou no estádio com o pé esquerdo! Isso é inaceitável!
- Sim, mas...
- Mas nada! Você não viu o gesto que o juiz fez naquela falta? Uma clara apologia à torcida adversária! Por isso que eu digo, é tudo corrupto! Aposto que vai votar em...
-... Opa, minha vez! Boa sorte!
- Boa!